sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Um corredor branco, incólume, infinito
Uma atrás da outra, frias, tristes, severas
São portas, escondem, desafiam
Não ouso, não arrisco
Tenho medo.
São vidas, são escolhas, são metas
São oportunidades, são obstáculos
São jogos, são teimas
E teimo em não abrir
Teimo em seguir, olhando
Com remorso, com arrependimento
De desistente, de cobarde
Não me sei bravura, coragem,
Não me sei vitória, ou força
Sei que olho as portas
E teimo em não abrir

Filho

"...estávamos de mãos dadas. Segurar a pequena mão dele, sentir os seus dedos pequenos a agarrarem a minha mão é uma justificação óbvia para tudo, para a vida. Vale a pena nascer, crescer, vale a pena a adolescência inteira, todos os sacrificios, vale a pena a responsabilidade, vale a pena sair pelo desconhecido e ter de estar preparado para o impossível, vale a pena ler obras completas, passar os dias fechado apenas a ler, vale a pena comer sopa, aprender a fazer sopa, vale a pena lavar loiça para ter a oportunidade de segurar-lhe a mão."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

"He ran to the end of the train and watched as her figure, once gigantic, now shrank in his eyes, but grew more than ever in his heart. "

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fugir

Fugir deste mundo que me consome, que me sufoca. Viver na penumbra, na sombra da abstracção.
Tentar, vomitar de esforço, sangrar de dor, desmaiar de cansaço.
Voltar, às ideias que me algemam aos dias. Não tenho para onde fugir...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Desnorte

Assim fico. À procura, desesperante, de rumos para os dias, de vida para os dias. Sem nada, ou muito pouco. Num caudal de lamentos a mim própria como se me pudesse ajudar. Oxalá pudesse. Nem eu. Há horas em que não sobra nada, é um vazio cheio de nada, sem fim. Há outras horas, as mais sufocantes, que fico presa numa tortura quase que auto-infligida, por não conseguir (querer?) evitar. Há ainda as horas em que alivia, em que vou lembrando e esquecendo, lembrando e esquecendo, lembrando e tentando esquecer que continuo neste desnorte. 
E assim fico. À procura.

Hora que Passa

Vejo-me triste, abandonada e só 
Bem como um cão sem dono e que o procura 
Mais pobre e desprezada do que Job 
A caminhar na via da amargura! 

Judeu Errante que a ninguém faz dó! 
Minh'alma triste, dolorida, escura, 
Minh'alma sem amor é cinza, é pó, 
Vaga roubada ao Mar da Desventura! 

Que tragédia tão funda no meu peito!... 
Quanta ilusão morrendo que esvoaça! 
Quanto sonho a nascer e já desfeito! 

Deus! Como é triste a hora quando morre... 
O instante que foge, voa, e passa... 
Fiozinho d'água triste... a vida corre... 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

domingo, 13 de novembro de 2011

 "I have nowhere to send this letter and no reason to believe you wish to receive it. I write it only for myself. And so I will hide it away along with all the things left unsaid and undone between us." 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O silêncio do que digo

Hoje à noite sentei-me no café com uma amiga. Como todas as noites. Com a mesma amiga.
Pedimos um café e acendemos um cigarro com o mesmo ar aborrecido de sempre o fazermos. As caras à volta são as mesmas, e o cheiro a cigarros é o mesmo. O café desperta o paladar como nas outras noites, com a mesma quantidade de açúcar, mexido talvez o mesmo número de vezes ou então uma mais ou uma menos. 
Ali estávamos as duas. Com o mesmo olá e o mesmo sorriso de gostarmos uma da outra. E as conversas que conversamos por conversar e que gostamos porque fazem rir, porque fazem lembrar, porque fazem o tempo passar sem demorar. E hoje rimos, e rimos muito. Hoje fez-se uma hora ou duas num minuto ou dois que pareceu. Hoje sentei-me no café com uma amiga e pensei vezes muitas ela é minha amiga e gosto dela. E disse muitas coisas, e nessas muitas coisas que disse queria ter dito és minha amiga e gosto de ti. Mas não precisei, ela ouviu no silêncio do que disse, tudo o que eu lhe queria dizer. Porque as palavras têm destes silêncios, estes que gritam e às vezes são ouvidos. Eu ouvi. Ela também. Hoje à noite sentei-me no café e disse muito mais do que aquilo que disse e ouvi muito mais do que aquilo que ouvi.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Vejo-te a chegar

Sempre te vejo
Sempre que olho
Vejo e vens no vento
No sibilar por entre os ramos,
as folhas.
Vejo-te nas sombras
sempre que olho,
no dia, do sol
na noite, das luzes.
Vejo-te nas caras
deste que passou,
daquele que vem além.
Vejo-te nas vozes
nas músicas
nas palavras
que leio, que ouço e digo.
Vejo-te ainda mais
Quando pouso as pálpebras
Quando pouso o corpo
Quando pouso as dores do dia
e tento dormir.
Aí vejo-te a chegar
E contigo o mar.

sábado, 5 de novembro de 2011

O sonho é a pior das cocaínas

O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma. 

Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego'

Sofro de não te ver

Sofro 
de não te ver, 
de perder 
os teus gestos 
leves, lestos, 
a tua fala 
que o sorriso embala, 
a tua alma 
límpida, tão calma... 

Sofro 
de te perder, 
durante dias que parecem meses, 
durante meses que parecem anos... 

Quem vem regar o meu jardim de enganos, 
tratar das árvores de tenrinhos ramos? 



Saúl Dias, in "Sangue (Inéditos)"

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Hoje, penso.

É só uma janela. Penso.
A luz pública, as árvores, os carros. O outono, o céu carregado, pesado de água, o vento frio. E penso. São só árvores, só carros, só chuva. O que há de belo? Eu também o acho. Mas não hoje.
Hoje, penso. Olhos azuis são só olhos azuis. Poesia é apenas palavras, letras. Música é só barulho.
Hoje, penso. Telas são panos brancos, e quando pintados são panos brancos com tinta.
Hoje, penso. Tudo é apenas qualquer coisa. Qualquer coisa só.
Não é assim mas hoje o é.

sábado, 22 de outubro de 2011

Hoje apetece-me morrer.

Hoje tenho uma pedra em cima do peito que não me deixa respirar. 
Hoje tenho uma mão a estrangular-me o pescoço que não me deixa falar. 
Hoje tenho uma corda nos tornozelos que não me deixa caminhar. 
Hoje apetece-me morrer.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Começa a ir ser dia

"Mas eu, o mal-dormido, 
Não sinto noite ou frio, 
Nem sinto vir o dia 
Da solidão vazia. 
Só sinto o indefinido 
Do coração vazio. "

sábado, 15 de outubro de 2011

Saudade

As palavras não chegam nem um pouco, não dizem as confusões das ideias, não mostram os novelos, emaranhados de sentimentos, de dores, de lutas, de perdas. Perde-se a vida assim, como um molho de chaves. Perdem-se sonhos, vontades, desejos. A sensação que fica é de cair num buraco sem término, aos encontrões com pensamentos escuros, doentes de desesperança. E continuo a cair, sem ver o início, onde tombei, e sem ver o fim, onde possa pousar o corpo. Ai a saudade! Sinto falta. Caio por entre imagens, fotografias guardadas nos dias de sol. Olho-as e choro, choro de saudade. Triste, triste fim que não tardou. Chegou, arde, consome. Não sai. Os pensamentos perseguem, e matam aos poucos.
Talvez falte tempo que alivie. Talvez nem o tempo seja solução.
Mas hoje o dia é de chuva, de céu negro e trovoada, de frio gélido que chega aos ossos. 
Isso e saudade. Muita!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Adeus

Quero chorar e não consigo
Quero não chorar e também não consigo
Quero morrer mas não posso
Quero poder mas não posso também
Quero ter, mas não tenho, não vou ter
Quero esperar mas só desespero
Quero rir mas não rio, nem sorrio
Quero fugir mas não tenho onde ir
Quero que não doa, mas dói, dói muito
Não quero ter de dizer adeus
Mas...
...Adeus

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Some people feel like they don't deserve love. They walk away quietly into empty spaces, trying to close the gaps of the past."

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

"Como se entrassem num túnel, apercebiam-se, cada vez mais dentro de si, de que se aproximava algo para separá-los. Liam no seu interior que esse momento os esperava parado no futuro e que o tempo se consumia diante deles, ardendo."
"Minha alma está cansada da minha vida." FP

sábado, 8 de outubro de 2011

Mundo, Tudo, dóis-me hoje

Há dias em que palavras não resolvem, os cigarros não acalmam, e o sono não chega. Os olhos não secam. E a dor, a dor só fica, devora e tortura. A dor fica aqui assim, a matar. Sinto-a a sugar, a pesar. Pesa muito. E tenho medo dos infernos da solidão, dos demónios das noites. Da insanidade de pensar o pensar, pensar que penso, e no que penso. Tenho tantos medos. Como uma menina de poucos anos. Há dias em que sou assim, uma menina, assustada, perdida do mundo. Hoje é mais um dia de dor. Quando digo dor, digo deixar cair o corpo na cama e desistir, ficar a ver o tempo, a demorar. Quando digo dor, é chorar com a música e ouvi-la uma vez depois da outra. É ficar à espera na desesperança de não ver. Te. Quando digo dor é ter muito medo. Muito medo. 
Mundo, Tudo, dóis-me hoje.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

‎"You know what music is? God's little reminder that there's something else besides us in this universe, a harmonic connection between all living beings, every where, even the stars. "

Pobre Velha Música!

Pobre velha música! 
Não sei por que agrado, 
Enche-se de lágrimas 
Meu olhar parado. 

Recordo outro ouvir-te, 
Não sei se te ouvi 
Nessa minha infância 
Que me lembra em ti. 

Com que ânsia tão raiva 
Quero aquele outrora! 
E eu era feliz? Não sei: 
Fui-o outrora agora. 
Fernando Pessoa

domingo, 2 de outubro de 2011

Declaração em juízo


"Decerto não houve propósito
de me deixar entregue a mim mesmo,
perplexo,
desentranhado.
não cuidaram que um sobraria.
Foi isso. Tornei, tornaram-me
sobre - vivente.
Se se admiram de eu estar vivo,
esclareço: estou sobrevivo.
Viver, propriamente, não vivi
senão em projeto. Adiamento.
Calendário do ano próximo.
Jamais percebi estar vivendo
quando em volta viviam quantos! Quanto.
alguma vez os invejei. Outras, sentia
pena de tanta vida que se exauria no viver
enquanto o não viver, o sobreviver
duravam, perdurando.
E me punha a um canto, à espera,
contraditória e simplesmente,
de chegar a hora de também
viver."

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A vida que não é a minha

Eu tenho uma vida que não é a minha.
A minha não é esta.
A minha fugiu e foge
Por entre os desassossegos.
A minha passa as noites sem mim
e os dias longe.
E eu fico numa que não é a minha
Deve ser de alguém
Que também a espera
E talvez a queira.
Mas eu só queria a minha
Que vai mais à frente com pressa
E por isso não lhe chego
Só a vejo, por entre um pó que cega às vezes
Ou nevoeiro que não levanta.
A minha quando penso nela
Quase que a sei de cor
Sei a que cheira e sabe
Sei a melodia e as letras.
Só que ela foge e deve rir
Da louca que corre atrás dela
A chorar chuvas de mar.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A festa

Ao longe as luzes salpicam o bréu com cores e barulhos. Os olhos fixos, pasmados, as bocas semi-abertas a olhar também. "Olha, olha!". Eu olhei. Primeiro para cima, para o céu a mudar de cor, e depois a mudar de cor e mais uma vez, algumas vezes. Depois olhei à volta. Velhos, novos e crianças. Pais, avós, netos. Farturas, pipocas, balões. Risos. sorrisos, conversas. Festa. As melhores calças, a melhor camisa, até a gravata. A missa, a música, os almoços até serem jantares. Os problemas deixados em casa, as tristezas em casa também ou trazidas no bolso, escondidas para não estragarem a festa. Pensei "também quero". Tentei deixar em casa, tentei guardar no bolso. Acabei a esconder, não na algibeira, mas por trás de risos, sorrisos e conversas. Mas o céu salpicado de cores muitas e barulhos muitos foi festa para mim. E por isso foi boa. Porque não foi tão escuro hoje.

sábado, 24 de setembro de 2011

Demons

"Dark demons in my dreams,
turn my laughter into screams.
What was good now is bad,
damn these demons get me mad.
I wish there was a way to fight,
but these demons come back every night"

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Já nem chorar faço

Já nem chorar faço
Só um peso nos olhos, um aperto no peito
Que suga aos pouquinhos
o que foi bom
o que não é
mais
nada
Quase que sinto
Os sorrisos a fugir
na pele arrepiada ainda
de pensar
no nó no estômago
que agora é de não ter
e que era de ter
o que agora foge
e eu vejo a fugir
e ver é o que posso fazer apenas
porque uma parede de vidas outras
me separa da minha vida não morta
Então continuo
com o peso nos olhos e o aperto no peito
Já nem chorar faço
e se fizer
é a fraqueza de ter de desistir.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A cidade

Caminham sem interesse pelas casas, pelos carros, pelas pessoas. Passam nas pontes sem olhar os rios, sem olhar os barcos. Querem o sol apenas para aquecer pela manhã, não para doirar o mar, o rio antes da noite. E na noite querem as luzes apenas para poderem olhar e ver, não pelas sombras deambulantes pela cidade, pelas pessoas, pelos carros. As árvores são sombra para jogos intermináveis de xadrez, não são folhas a cair pelo outono, leves, breves, suaves. Não são cheiro a jasmim ou qualquer outro cheiro que seja o cheiro das árvores. A música dos tocadores de rua é barulho só e não magia, magia de quem ama uma qualquer arte que é aquela. O cheiro a café e a pão cheira ao café e ao pão de todas as manhãs, e nunca é diferente. Os velhos olham sempre com o mesmo vazio para lado nenhum e os novos correm com pressa de uma vida a fugir para lado nenhum talvez ou para um lado qualquer. Os sinos das igrejas, os autocarros a chegar e a ir, os velhos, as crianças. Vidas, vidas muitas a passar sem olhar a cidade.
"Morrer é quando os olhos se transformam em pálpebras, uma cortina que se cerra como no teatro e os espectadores partem em silêncio por estes corredores de painéis de azulejos, escadas de pedra, pátios."
António Lobo Antunes
"Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de Julho."
"Penso: um castigo é a vida, um castigo sem falta ou pecado, um castigo sem salvação; a vida é um castigo que não se impede e que não consente."

domingo, 18 de setembro de 2011

Fim de tarde

Se eu pudesse deitar a cabeça
sobre um peito qualquer
o teu seria o que queria e o sono
pesado, a pesar no corpo esgotado
exausto do cansaço de só me cansar
nos trabalhos de me ser
e se eu pudesse
encostar a cara no peito qualquer
que o teu seria, e escutar
um coração qualquer
que só o teu ouviria
e dormir, acordada até
no fim de tarde de mais ninguém
todos devemos ter um fim de tarde
nosso, e o nosso seria
num fim de tarde azul de céu e laranja
também de céu e a minha cabeça,
a minha cara, o meu ouvido, o meu sorrir
encostados no teu peito
que não era só um peito
mas uma vida a pegar noutra ao colo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Tudo

Queria eternidades de ti. Durante todas as horas dos dias.
Tudo devia ser o teu nome.
Posso chamar-te Tudo? Para mim o és. Tão certo como estar agora a escreve-lo.
- Tudo, vais ser?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Meu amor
minha dor
meu prazer
meu terror
razão de toda a fé e de
scrença no criador
tarde de verão
noite de inverno
brisa de paraiso
ou chama de inferno

és como 2 em 1
versão concentrada
para minha razão angustiada serenata
sempre ao meu lado sempre
longe de mim
sempre mais que suficiente,
sempre assim,assim..."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"Onde foi que a vida nos perdeu? E não tenho medo da palavra amor. Não tenho medo das palavras. Vê como digo morte: morte morte morte morte morte. Tudo me espera onde não existo. E o mundo acabou. O homem que está fechado dentro de um quarto sem janelas a escrever parou de repente..."
"Penso: o lugar dos homens é uma linha traçada entre o desespero e o silêncio. Como uma tempestade de vozes. Não sei se enlouqueci. E morro devagar. A tarde passou longa como uma vida. A dor: um silêncio de sentido sobre todos os gestos, um abismo a calar o significado de todas as palavras, um véu a tornar o tempo inútil. O súbito reconhecimento de mim em mim. Não sei ao certo se é a manhã que passa, se é o dia que passa, ou se é a vida que passa nesta manhã, neste dia. Somos o lugar onde a morte está."
‎" O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar. " 

domingo, 11 de setembro de 2011

- A verdade é que os teus dias são apenas uma colecção entediante de horas. Sem novas paixões, sem desafios, sem lugares para conhecer. Nada. Nada.
- Dizes isso porque ainda não conheces o mundo. Tens o coração cheio de raiva.
- Não. Eu odeio-te. És um monstro.
- Vou esquecer que disseste isso. Não sabes o que dizes.
- Digo isto porque vais morrer. E porque vais ser esquecida. Pó.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O fim de si

Sede. Caminha sedenta de vida, arrasada, ludibriada de dor. Arrasta-se, como uma sombra, insignificante, sem importância. Chora horas de amargura, de agonia. Chora dias que só foram dias, atrás de dias. Chora saudade. Chora música. Chora um mar.
Acende um cigarro. Sente o fumo misturar-se na boca, na garganta, no respirar lento, desistente, fugido.
Pára para sentir. Não sente nada. Vazio.
Fica ali, com o sol a semi cerrar-lhe os olhos, inchados, doridos. Sozinha de pessoas, de coisas. Sozinha de tecto, sozinha de chão. Sozinha de abraços, sozinha de palavras. Senão as suas, pensadas em meio de tristezas e de infernos.
A sua maior desilusão era ser. Não era. O fim de si chega numa manhã delicada, de sol tímido. Ainda a lua no céu. Pintado da cor azul. O fim de si chega na mais bela das manhãs. Silencioso, por entre ramos de árvores. Pintados da cor verde. Por entre travos de flores. Pintadas da cor que são todas.
O fim de si chega pintado de negro.
Fim.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tormentos

Ouço o silêncio e por ouvi-lo
Olho aquilo em que me transformo
A cor, que lá, falta
Lá, naquilo em que me tranformo
Perdida e lavada em sal
Carregando pesos, muito em vão
Por luta não lhes dar
Desistente
No meio duma chuva que não chove
Nem molha
Sob um sol que não queima
Sequer aquece
Aquilo em que me transformo
De tempos até estes
Perto de nada fica
E os demónios da noite
De dia também o são
Tormentos
Tormentos.
Doces foram os tempos
Que de lembrar, custa acreditar
Iludida que podia sonhar
E por faze-lo acabo a chorar
Os sonhos que tive e que só isso foram
E nem perto de deixar de o ser chegaram.

sábado, 3 de setembro de 2011

"Sometimes I wish that I had never met you, so I could go to sleep at night not knowing there's someone like you out there."

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

If dreams came true


Close my eyes and in a moment's time
I would find the joy I knew
If dreams came true
Far above the world I'd fly
Shining wings against the sky
Where the air is fresh and sweet
And at last I'm free

I am feeling very warm right now
Please don't disappear
I am spacing out with you
You are the most beautiful entity
That I've ever dreamed of

At night I will protect you in your dreams
I will be your angel

How does it make you feel?


I would be happy
With just one minute in your arms
Let's have an extended play together
You're telling me that we
Live too far to love each other
But your love can stretch further
Than you and I can see
So how does it make you feel?

All I need


All I need is a little time
To get behind this sun and cast my weight
All I need is a peace of this mind
Then I can celebrate

All in all there's something to give
All in all there's something to do
All in all there's something to live
With you...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

You make me real



I really want you, really do
Really need ya baby, God knows I do
'Cause I'm not real enough without you
Oh, what can I do?



You make me real
You make me feel like lovers feel
You make me throw away mistaken misery
Make me free, love, make me free


You make me real
Only you have that appeal
So let me slide in your tender sunken sea
Make me free, love, make me free

The Doors

I can't see your face in my mind


"Don't you cry
Baby
Please don't cry
I won't need your picture
Until we say goodbye"

Música

Ela: Gosto desta música.

Ele: E eu gosto de ti.

Música

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
o ódio transforma-se em tempo, o amor 
transforma-se em tempo, a dor transforma-se 
em tempo. 

os assuntos que julgámos mais profundos, 
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, 
transformam-se devagar em tempo. 

por si só, o tempo não é nada. 
a idade de nada é nada. 
a eternidade não existe. 
no entanto, a eternidade existe. 

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. 
os instantes do teu sorriso eram eternos. 
os instantes do teu corpo de luz eram eternos. 

foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto in "A casa, a escuridão"
"não ninguém saberá o que aconteceu.
estou muito cansado
apetece-me dormir até morrer."

domingo, 28 de agosto de 2011

"fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer." 



José Luís Peixoto in A criança em ruínas

Na calmaria

Se pudesse, agora
Estava sem mim
Sem mim
E não aqui
Algures em nenhures
Na calmaria
De não ter lembranças
Na calmaria
De não ansiar
Na calmaria
De pensar nada

E nesse vazio
Dormia a vida.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Aquela música

Ouço a mesma música
Que me lembra
Só, porque não quero esquecer.

Lágrima a seguir o soluçar
Em sinfonia
Acre, sabor de cada
Que caindo, aliviam
O peito espremido
A dor na testa
A secura
E a mão que desobedece.

Doce, o sabor acre
Porque de olhos lavados
Lavados de sal
É mais fácil deixar a noite cair.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

na hora de pôr a mesa eramos cinco


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luis Peixoto, in "a criança em ruínas"

A criança em ruínas


"Entre as palavras da minha voz, as minhas palavras, renasce um silêncio rasgado de morte.
Cresce um vazio no que em mim é vazio.
Sou a erosão de mim próprio.
Minto-me.
Nego cada brisa das minhas mãos, que não são minhas, das minhas lágrimas, que não são minhas, das minhas palavras.
Eu não sou eu.
Eu sou uma parede a morrer.
Eu sou uma árvore a morrer.
Eu sou um céu morto.
Venceu-me o Inverno e lutei a seu lado para me destruir.
Nunca fui criança.
Nunca encontrei ingenuidade ou arrependimento.
Hoje, cadáver insepulto, despeço-me sem mágoa do que não fui.
Sou a erosão de mim próprio e isso basta-me.
Sou o holocausto dentro de mim.
Sou um incómodo desnecessário.
Sou um erro propositado e sou erro maior por isso.
Entre as palavras da minha voz, as minhas palavras, renasce um silêncio rasgado de morte. Envelhecem estas palavras já velhas.
A minha vida é o tempo de matar-me e de repeti-lo em palavras como um ridículo."

José Luís Peixoto

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Livro

"Não têm conta as vezes que me disseram, Livro, posso ler-te?
Rio-me dessa gracinha com o umbigo."


"voltar para junto dele, os seus peitos de novo abraçados, colados, nenhuma distância. Dentro de si, sem palavras,repetia uma nuvem informe de esperança."
"Naquele momento preciso sentia-se a sangrar por dentro, sentia que o interior da pele sangrava e que todo esse sangue se acumulava, líquido, grosso, e que lhe bastava tocar numa lasca mínima para que se esvaísse e a mata-se"
"...tinha ideias que não o deixavam adormecer, eram como pedras bicudas dentro dos olhos. Às vezes por sugestão, chorava-lhe a vista."
"Fixaram-se por um momento. Foram maiores que os seus corpos. E viraram os olhos para qualquer detalhe inventado. Mas eram cegos. O tempo passou a ser qualquer coisa esmigalhada que chovia à sua volta, pedaços de palavras, pedaços de sons, pedaços de imagens. E voltaram a fixar-se. Os seus olhares atravessaram as lâmpadas baças da festa, as vozes, a aragem que lhes tocava nos cabelos, a música roufenha dos altifalantes, o cheiro do vinho tinto, os vultos desfocados das crianças que passavam a correr."

domingo, 21 de agosto de 2011

O mundo por entre

Tremi. Quase caí.
Que distância tão pouca e o mundo por entre.
Num olhar vago vi e por pouco não fugi
Agora, sozinha finalmente
Peço a mim o ceder
Ao corpo cansado
De mais um dia sem fim.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

3:36 am

Passam-se os dias, apenas passando

Passam-se os dias, apenas passando
Numa brandura sufocante
De noite a seguir ao dia
De minutos feitos horas.
Jogo só de perder.
Páro de pensar, e até nisso penso
Mas em ti penso
e a seguir outra vez
E só no adormecer páro
Ou páro por não saber que continuo
Por não te ter, tenho nada
E por nada ter
Fica o peso dos minutos
Feitos horas.
E se adormecesse agora
E se o fosse fazer para sempre
Nada de nada levava
Ou talvez a paz, só
No silêncio do fim.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Se namorares comigo, dou-te um pombo, cem escudos e um livro" Livro - José Luís Peixoto
"Quando me custava respirar não era tanto das dores ou da febre, era da falta de lugar para onde fugir."
‎"A voz saiu-lhe desconsolada, infantil, e teve de chorar outra vez. Pensou em muitas coisas e, com o tempo, sentiu-se diminuir até ser menos do que uma pedra, um grão de pó. Não conseguia sair de dentro do tempo" Livro - José Luís Peixoto

quarta-feira, 10 de agosto de 2011



Fear and panic in the air
I want to be free
From desolation and despair
And I feel like everything I saw
Is being swept away
And I refuse to let you go

I can't get it right
Get it right
Since I met you

Loneliness be over
When will this loneliness be over?

terça-feira, 9 de agosto de 2011


How much pain has cracked your soul?
How much love would make you whole?
You're my guiding lightning strike

I can't find the words to say
They're overdue
I'd travel half the world to say
"I belong to you"




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Toda a gente me dizia: «Ele vai ficar bem. A vida é assim, acontece-nos a todos», mas eu conhecia os filmes que nos passam pela cabeça durante a noite, sabia que quase nos fazem enlouquecer de dor."

domingo, 7 de agosto de 2011

Stay with me for a while





"Hey blue, where'd you run to now?

Miss you since they found you out
I've been waiting such a long time
For your smile, for you

I lay with you this velvet morning
Stay with me for a while
Where we run to is up to you
Just stay with me for a while"

Oh, my heart...

"If you go and i would stay
And you would call my name
I would cry, yes, i would cry
Walking in or walking out
Is the same as talking about my heart
My heart

Hiding behind my hair today
Wishing i was far away..."


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Blank page is all the rage
Never meant to say anything
In bed I was half dead
Tired of dreaming of rest
Got dressed drove the state line
Looking for you at the five and dime
Stop sign told me stay at home
Told me you were not alone"
"A thousand miles seems pretty far
But they've got planes and trains and cars
I'd walk to you if I had no other way

I can promise you
That by the time we get through
The world will never ever be the same
And you're to blame"

Dóis-me

O mundo caiu me nos ombros.
E pesa mais que o mundo.
Ser fraco, onde a vida
Não é em mim.
E o frio, que no calor
Continua persistente
E corta e dói
E não sara
E não deixa
Deixar de pensar
e parar de sentir.
O frio
que vem com a noite
E fica, a fazer
companhia
E a doer...

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dor

Passa-se um dia e outro dia 
À espera que passe a Dor, 
E a Dor não passa, e porfia, 
Porque trás dia, outro dia 
Que traz Dor inda maior; 

Porque embora a Dor aflita 
Calasse há muito seus ais, 
Ainda, fundo, palpita 
Uma outra Dor que não grita: 
A Dor do que não dói mais. 

Francisco Bugalho, in "Dispersos e Inéditos"

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor 
nem o meu grito de libertação 

Não posso adiar o coração."



António Ramos Rosa

"Quanto terror latente
nesse mar gelado
que desde sempre
levamos na alma."
                         


                    António Castañeda