terça-feira, 22 de março de 2011

segunda-feira, 21 de março de 2011

A miséria do meu ser

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?

Fernando Pessoa

sexta-feira, 18 de março de 2011

O que há em mim é sobretudo cansaço

"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço..."

                      Álvaro de Campos

sexta-feira, 11 de março de 2011

Dor de pensar

Sentada no escuro, a contemplar o vazio e a ouvir Clair de Lune. São os meus minutos, a minha solitude. Que chega finalmente, na esperança de poder parar. Impossível. Qual dor de pensar. Garganta seca, olhos cansados, mãos trémulas. Fustigada pela falta. Fustigada pela saudade. Sou apenas mais uma. Uma apenas. Não sou mais, sou menos. E peno. As minhas palavras são mortas. Cheias de dor. Dor de pensar. 


Nothing with nothing around it 
And a few trees in between
None of wich very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I've found it,
For if ain't here, where the Devil it is?

Fernando Pessoa

Desespero

s.m. Desesperança com irritação.
Angústia.
Raiva; desesperação.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

It's going to be a long night

I'm trying to sleep, but the voices in my head are too loud. So I turn my side and face the wall, and breathe slowly. Close my eyes, open them, close them once more. I suppose this is why most people are insomniacs. The voices won't go away. the memories keep coming back. I turn the lights on, sit on the edge of my bed and cry. Just a little bit, just to make it easier to breathe. I turn the lights off and try to sleep again. As allways, it's going to be a long long night...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vidas não mortas Parte II

Todas as noites esperava. Horas infinitas demasiado pesadas. Gélida escuridão selada pelo silênco implacável. Silêncio que na sua cabeça soava a milhares de tambores. Doía. Doía impediedosamente . Nada acalmava o desespero inquietante da procura de respostas sem resultados. Só queria a facilidade de uma vida vazia, apesar de o abominar. O fácil, o suportável. Uma vida morta. Uma mente sem lembranças. Pensar dói, corrói. O anseio de uma miserável trégua ainda lhe doía mais, ainda corroía mais, 'Como posso desjar tal absurdo?'. Mas a verdade é que se cansara de tentar fugir ao inevitável, às repetições, à ausência de genuinidade. Era uma luta perdida há muito. E sabia o que lhe esperava. Já ninguém era capaz de suportar a sua dor, dor essa que deixara de ser dela quando julgaram que havia perdido a razão. A mudança de parágrafo aproximava-se. Havia perdido o controlo da sua vida não morta e tudo se resumia agora ao nada de todos os ordinários. Chamaram-na louca porque ousou questionar. E como o fez incessantemente acharam ser um problema sério, como dizem eles. Fugir nem valia a pena, conformação era a única resposta possível, não que fosse suportável. Longe de o ser. Pelo menos estaria sozinha, com a companhia de sempre: a noite.